Atenção — Maio 2026: A NOAA estima 60–90% de probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026. Pessoas com doenças respiratórias devem redobrar os cuidados.
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Clima e saúde · Artigo médico

El Niño 2026 e os riscos para a sua respiração

9 min de leitura
Dra. Thais Santana · Pneumologista
Maio 2026

Um novo El Niño está a chegar ao Brasil — e desta vez pode ser intenso. Para quem já tem asma, DPOC, tosse crónica ou qualquer condição respiratória, as próximas estações exigem atenção redobrada. Entenda o que está por vir e como proteger os seus pulmões.

O que é o El Niño e por que está voltando agora?

O El Niño é um fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico tropical. Essa alteração na temperatura do mar muda os padrões de circulação atmosférica em escala global, afectando chuvas, temperaturas e ventos em diferentes regiões do planeta — incluindo todo o Brasil.

Em Maio de 2026, as projeções da NOAA (Agência Oceânica e Atmosférica dos EUA) e do INMET apontam para uma probabilidade de 60% a 90% de formação do El Niño no segundo semestre do ano. Há inclusive uma chance de 37% de que este episódio atinja intensidade “muito forte” — o que no debate público se chama de “super El Niño”.

O que dizem os dados de Maio 2026

Segundo nota técnica conjunta do INPE e INMET publicada em Abril de 2026, a probabilidade de El Niño supera 60% a partir do trimestre Maio–Junho–Julho, podendo ultrapassar 90% no segundo semestre. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas também alertou para a possibilidade de um episódio de grande intensidade entre o final de 2026 e 2027.

Como o El Niño afecta o Brasil — região por região

Os efeitos do El Niño não são iguais em todo o país. A distribuição é desigual e, para a saúde respiratória, as regiões mais afectadas são justamente aquelas onde os impactos são mais extremos:

Norte e Nordeste

Seca severa, prolongamento da estação seca na Amazônia, maior risco de incêndios florestais e queda do nível dos rios. Impacto respiratório elevado pela fumaça e partículas finas.

Sul

Chuvas acima da média, inundações e aumento de humidade. Favorece o crescimento de mofo e fungos — gatilhos directos de crises asmáticas e rinite.

Sudeste e Centro-Oeste

Temperaturas elevadas aumentam a concentração de ozônio troposférico e intensificam a inversão térmica — fenômeno que prende poluentes nas cidades.

Santos e litoral paulista

Oscilações mais intensas de temperatura e humidade, com períodos secos intercalados por chuvas — ambiente favorável ao aumento de ácaros e à piora de asma e rinite alérgica.

O que o El Niño faz com os seus pulmões

A relação entre o El Niño e a saúde respiratória não é directa — é mediada pela qualidade do ar, pela temperatura e pela humidade. Mas o resultado final é concreto: mais crises, mais internações e mais sintomas para quem já tem vulnerabilidade respiratória.

1. Queimadas e material particulado

A seca prolongada que o El Niño traz ao Norte e Centro-Oeste alimenta os incêndios florestais. A fumaça libera material particulado fino (MP2,5) — partículas tão pequenas que atravessam os brônquios e chegam aos alvéolos pulmonares, podendo até entrar na corrente sanguínea. Para quem tem asma, bronquite ou DPOC, uma única semana de exposição pode desencadear uma crise grave.

2. Inversão térmica e acúmulo de poluentes

Com o calor intenso, a inversão térmica — fenômeno natural em que uma camada de ar quente aprisiona o ar frio e os poluentes perto do solo — torna-se mais frequente e mais intensa. Nas grandes cidades brasileiras, isso se traduz em qualidade do ar crítica durante dias consecutivos, afectando mesmo pessoas sem histórico respiratório.

3. Aumento do ozônio troposférico

O calor combinado com poluição urbana aumenta a formação de ozônio no nível do solo — diferente do ozônio estratosférico que nos protege. O ozônio troposférico irrita as vias aéreas, provoca tosse, reduz a capacidade pulmonar e agrava a asma, mesmo em concentrações moderadas.

4. Ácaros, mofo e alérgenos

No litoral e no Sul, o excesso de humidade do El Niño favorece a proliferação de ácaros domésticos e fungos — dois dos principais desencadeadores de crises de asma e rinite alérgica. Um apartamento húmido pode tornar-se um ambiente de risco mesmo para quem tem a doença bem controlada.

5. Vírus respiratórios e epidemias

As variações bruscas de temperatura enfraquecem as defesas imunitárias das mucosas respiratórias. Influenza, bronquiolite e infecções respiratórias agudas tendem a aumentar em frequência e intensidade durante períodos de El Niño, especialmente em crianças e idosos.

Grupos de maior risco

São especialmente vulneráveis aos efeitos respiratórios do El Niño: pessoas com asma, DPOC, bronquite crónica ou fibrose pulmonar; crianças abaixo de 5 anos; idosos acima de 60 anos; tabagistas activos ou ex-tabagistas; e quem vive ou trabalha próximo a áreas de queimadas ou grandes centros urbanos.

Tem doença respiratória? Prepare-se antes do El Niño chegar.

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Como proteger a sua saúde respiratória durante o El Niño

A boa notícia é que há muito que pode ser feito antes e durante o fenômeno para reduzir os riscos — especialmente se já tem uma condição respiratória diagnosticada.

1
Consulta preventiva agora
Não espere pelos primeiros sintomas. Avaliar e ajustar o tratamento antes do pico do El Niño é muito mais eficaz do que tratar uma crise.
2
Monitorar a qualidade do ar
Aplicativos como IQAir ou Weather Channel mostram o índice de qualidade do ar em tempo real. Em dias críticos, evite actividade física ao ar livre.
3
Máscara N95 em dias de queimada
A máscara N95 filtra o material particulado fino (MP2,5). Máscaras cirúrgicas comuns não oferecem protecção adequada contra a fumaça de incêndios.
4
Controlar a humidade em casa
Mantenha a humidade entre 40–60%. Abaixo de 30% resseca as mucosas; acima de 70% favorece ácaros e mofo. Um higrômetro custa menos de R$ 30.
5
Vacinas em dia
Influenza e pneumococo protegem contra as infecções que o El Niño potencializa. Converse com o seu médico sobre o calendário vacinal.
6
Manter a medicação de controlo
Se usa inaladores ou outros medicamentos de controlo para asma ou DPOC, não interrompa o tratamento. Períodos de El Niño são de maior risco, não de menor.
Procure atendimento imediato se surgir:
  • Falta de ar em repouso ou que não melhora com o inalador de resgate
  • Lábios ou pontas dos dedos arroxeados — sinal de oxigenação baixa
  • Chiado intenso no peito com dificuldade de falar frases completas
  • Febre alta associada a tosse com catarro esverdeado ou com sangue
  • Piora rápida de sintomas em quem tem DPOC ou asma grave

Perguntas frequentes

Quem tem asma controlada precisa se preocupar com o El Niño?+
Sim. Mesmo com asma bem controlada, o aumento de poluentes, ácaros e oscilações climáticas durante o El Niño pode desencadear crises. A recomendação é fazer uma consulta preventiva para revisar o plano de acção e garantir que o tratamento está optimizado para o período.
A fumaça de queimadas no Norte do Brasil afecta quem mora em Santos?+
Sim — em episódios de queimadas intensas, como os registados em 2024 que afectaram São Paulo, o material particulado fino viaja centenas de quilômetros pelos ventos. O litoral paulista, incluindo Santos, pode registar queda significativa na qualidade do ar durante esses episódios.
Devo guardar um inalador de resgate em casa por precaução?+
Isso deve ser decidido com o seu médico. Se você tem diagnóstico de asma ou DPOC, muito provavelmente já deveria ter um inalador de resgate prescrito. Não use medicamentos respiratórios sem prescrição — a automedicação pode mascarar crises graves.
Purificadores de ar domésticos ajudam durante o El Niño?+
Purificadores com filtro HEPA podem ajudar a reduzir a concentração de partículas finas, ácaros e esporos de fungos dentro de casa — especialmente em dias de má qualidade do ar exterior. São um complemento útil, mas não substituem o tratamento médico.
Aviso médico: Este artigo tem finalidade informativa e educativa, com base em dados climáticos de Maio de 2026 (NOAA, INMET, INPE). Não substitui a consulta, diagnóstico ou tratamento médico especializado. Se tem doenças respiratórias, consulte o seu pneumologista antes do início do El Niño.