O que é o El Niño e por que está voltando agora?
O El Niño é um fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico tropical. Essa alteração na temperatura do mar muda os padrões de circulação atmosférica em escala global, afectando chuvas, temperaturas e ventos em diferentes regiões do planeta — incluindo todo o Brasil.
Em Maio de 2026, as projeções da NOAA (Agência Oceânica e Atmosférica dos EUA) e do INMET apontam para uma probabilidade de 60% a 90% de formação do El Niño no segundo semestre do ano. Há inclusive uma chance de 37% de que este episódio atinja intensidade “muito forte” — o que no debate público se chama de “super El Niño”.
Segundo nota técnica conjunta do INPE e INMET publicada em Abril de 2026, a probabilidade de El Niño supera 60% a partir do trimestre Maio–Junho–Julho, podendo ultrapassar 90% no segundo semestre. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas também alertou para a possibilidade de um episódio de grande intensidade entre o final de 2026 e 2027.
Como o El Niño afecta o Brasil — região por região
Os efeitos do El Niño não são iguais em todo o país. A distribuição é desigual e, para a saúde respiratória, as regiões mais afectadas são justamente aquelas onde os impactos são mais extremos:
Norte e Nordeste
Seca severa, prolongamento da estação seca na Amazônia, maior risco de incêndios florestais e queda do nível dos rios. Impacto respiratório elevado pela fumaça e partículas finas.
Sul
Chuvas acima da média, inundações e aumento de humidade. Favorece o crescimento de mofo e fungos — gatilhos directos de crises asmáticas e rinite.
Sudeste e Centro-Oeste
Temperaturas elevadas aumentam a concentração de ozônio troposférico e intensificam a inversão térmica — fenômeno que prende poluentes nas cidades.
Santos e litoral paulista
Oscilações mais intensas de temperatura e humidade, com períodos secos intercalados por chuvas — ambiente favorável ao aumento de ácaros e à piora de asma e rinite alérgica.
O que o El Niño faz com os seus pulmões
A relação entre o El Niño e a saúde respiratória não é directa — é mediada pela qualidade do ar, pela temperatura e pela humidade. Mas o resultado final é concreto: mais crises, mais internações e mais sintomas para quem já tem vulnerabilidade respiratória.
1. Queimadas e material particulado
A seca prolongada que o El Niño traz ao Norte e Centro-Oeste alimenta os incêndios florestais. A fumaça libera material particulado fino (MP2,5) — partículas tão pequenas que atravessam os brônquios e chegam aos alvéolos pulmonares, podendo até entrar na corrente sanguínea. Para quem tem asma, bronquite ou DPOC, uma única semana de exposição pode desencadear uma crise grave.
2. Inversão térmica e acúmulo de poluentes
Com o calor intenso, a inversão térmica — fenômeno natural em que uma camada de ar quente aprisiona o ar frio e os poluentes perto do solo — torna-se mais frequente e mais intensa. Nas grandes cidades brasileiras, isso se traduz em qualidade do ar crítica durante dias consecutivos, afectando mesmo pessoas sem histórico respiratório.
3. Aumento do ozônio troposférico
O calor combinado com poluição urbana aumenta a formação de ozônio no nível do solo — diferente do ozônio estratosférico que nos protege. O ozônio troposférico irrita as vias aéreas, provoca tosse, reduz a capacidade pulmonar e agrava a asma, mesmo em concentrações moderadas.
4. Ácaros, mofo e alérgenos
No litoral e no Sul, o excesso de humidade do El Niño favorece a proliferação de ácaros domésticos e fungos — dois dos principais desencadeadores de crises de asma e rinite alérgica. Um apartamento húmido pode tornar-se um ambiente de risco mesmo para quem tem a doença bem controlada.
5. Vírus respiratórios e epidemias
As variações bruscas de temperatura enfraquecem as defesas imunitárias das mucosas respiratórias. Influenza, bronquiolite e infecções respiratórias agudas tendem a aumentar em frequência e intensidade durante períodos de El Niño, especialmente em crianças e idosos.
São especialmente vulneráveis aos efeitos respiratórios do El Niño: pessoas com asma, DPOC, bronquite crónica ou fibrose pulmonar; crianças abaixo de 5 anos; idosos acima de 60 anos; tabagistas activos ou ex-tabagistas; e quem vive ou trabalha próximo a áreas de queimadas ou grandes centros urbanos.
Tem doença respiratória? Prepare-se antes do El Niño chegar.
Agendar avaliação preventivaComo proteger a sua saúde respiratória durante o El Niño
A boa notícia é que há muito que pode ser feito antes e durante o fenômeno para reduzir os riscos — especialmente se já tem uma condição respiratória diagnosticada.
- Falta de ar em repouso ou que não melhora com o inalador de resgate
- Lábios ou pontas dos dedos arroxeados — sinal de oxigenação baixa
- Chiado intenso no peito com dificuldade de falar frases completas
- Febre alta associada a tosse com catarro esverdeado ou com sangue
- Piora rápida de sintomas em quem tem DPOC ou asma grave